quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Christine



 

Christine
Escrito por Samuel de Andrade        


  Christine ofegava ante o Fantasma. Num misto de terror e compaixão, a jovem permanecia estática, a recordar toda a história vivida até aquele momento crucial. Os sombrios olhos dele, fixos nos dela, pungiam brilho lânguido.
                - Christine, eu te amo... – sussurrou o Fantasma.
                Um suspiro vindo da moça pontuou o silêncio que seguiu. Ela se aproximou receosa, confusa. Seus medos se emaranhavam à fixação que sentia pela alma vagante. Postou-se tão próxima que pôde sentir na pele o gélido ar exalado da criatura.
                - Dize que tu compartilharás comigo... – disse ela – um amor, uma vida... Dize e seguir-te-ei. Compartilha cada dia comigo, cada noite e cada manhã...
                - Somente tu – secundou o Fantasma – podes fazer minha canção voar! Está terminada agora a música da noite...
                A ópera seguiu em ritmo denso, cadenciado, e por fim a pesada cortina vermelha se fechou. A plateia ovacionouo magnífico desfecho do musical baseado na história de Gaston Leroux.
***
                Na mesma noite horas depois, quatro das atrizes que atuaram na peça conversavam descontraídas num pub do centro da cidade. O bar era agitado nos finais de semana, com a presença de um músico animando o ambiente. O quarteto, já alto pela bebida, comentava a apresentação de horas atrás.
                - ...e naquela parte eu travei – dizia uma delas às gargalhadas -, não me lembrava da próxima fala por nada! Foi aí que alguém soprou pra mim.
                - Bom, gente – disse outra moça -, mas eu ainda acho que a melhor cena foi a última, a que a Mirela interpretou como Christine.
                - Você diz o desfecho com o Fantasma?
                -Sim! – confirmou a atriz – Nossa, gente, a Mirela trabalhou muito bem esse papel. O diretor não poderia escolher atriz melhor. E a voz dela?
                - Perfeita! Ela cantando foi um verdadeiro show. E já era de se esperar, né? Fiquei sabendo que a Mirela passava mais de dez horas por dia ensaiando! A mãe dela me disse que a filha parecia um pouco paranoica por causa da peça.Estava falando sozinha a todo o tempo; quando alguém perguntava, ela dizia falar com um anjo. Com certeza fazer o papel principal é uma experiência muito desgastante.
                - Tem razão. – comentou uma das moças, com mais um gole daquele coquetel – E, falando nela, onde será que a Mirela está? Nós combinamos de vir pra cá depois da apresentação, mas até agora nada.
                - Eu tenho o número dela – secundou a outra já revirando a bolsa para encontrar o celular.
***
                Luzes apagadas. O quarto, submergido no breu da noite, mantinha-se em profundo silêncio perante aquele olhar subjetivo da mulher. Deitada na cama, ela sentia uma dor desalmada a lhe abater. Lágrimas desciam.
                Uma luz tênue iluminou a parede: seu celular vibrou na cômoda. Embora o ruído, ela não se levantou. Não moveu um músculo. Sentia-se fraca, apática. O sonho,em quem entregara corpo e alma, estava findando sem seu consentimento.
Ela era Christine! Precisava ser Christine... Aqueles momentos, aqueles encargos. O Fantasma. À solução de uma necessidade avassaladora, a dedicação. E agora um paradoxo irresoluto que ela teria de confrontar: o futuro.
                Christine se levantou trêmula. A secura da garganta a levou até a cozinha. Sua camisola branca ondulava ao sabor do vento suave que espreitava da janela. O desfecho. O rubor das cortinas assassinas. O fim de tudo...
                - Criatura deplorável da escuridão... – cantou ela aos quatro ventos, as lágrimas a correr – Que tipo de vida tu conheceste? Deus, dai-me coragem para mostrar-lhe: tu não estás sozinho!
                A água espargiu sobre a pia e o copo rolou pela borda, estilhaçando-se no chão. Seus pés os cacos rasgaram. Marcas impressas no piso. As cortinas vermelhas assassinas mataram a música, mataram a noite, mataram o Fantasma... Não! Não o Fantasma, ela sabia.
                Christine tomou o rumo da sacada, mas estacou ao notar um evento surreal ali presente. A porta de vidro que dava passagem à área externa do apartamento não estava mais lá. Em seu lugar, um espelho.
                - Deixa tua mente iniciar uma jornada por este estranho mundo novo! – sussurrou uma voz vinda de lugar algum – Abandona todos teus pesares do mundo que conheceste antes! Deixa tua alma levar-te para onde tu anseias estar! Só assim tu poderás me pertencer... Sou teu anjo, Christine, vem para mim...
                - Meu anjo da música... – balbuciou Christine encarando a imagem do Fantasma refletida. Sem hesitar, ela correu em direção ao espelho. Não parou. Correu para os braços dele. Sua ânsia pela paixão, pela música...
                - Deixa o sonho começar, Christine, deixa render teu lado mais sombrio... O poder da música que eu escrevo, o poder da música da noite...
                A atriz, com seu sonho, atravessou o espelho rumo à noite desconhecida. Confiava no amor àquela nova condição de existência. Como Christine, ela seria eterna, reconhecida até o fim! A orquestra vibraria para sempre a sua glória musical, num ápice de emoções selvagens. E assim, a cortina se fechou.

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